Praia do Futuro, 2014

by João Bertonie

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Se Manuel Bandeira projetava um exílio idílico chamado Pasárgada, onde seria amado ese desligaria do mundo real, Donato, personagem de Wagner Moura em “Praia do futuro”, vê numa fria e cinzenta cidade europeia o ambiente ideal para se renovar. Porém, isolando-se com um novo amante, o salva-vidas cearense sente muito mais que esperava sentir. Solidão, tristeza, raiva, sensação de desenraizamento – por tudo isso Donato passa na melancólica capital alemã cantada por David Bowie, na “Trilogia de Berlim”.

Quinto filme de Karim Aïnouz, diretor que trouxe os elogiados “Madame Satã” e “O céu de Suely”, “Praia do futuro” oferece ao espectador pouca ação em uma hora e 40 minutos de duração. Com um filme divido em três capítulos (“O abraço do afogado”, “Um herói partido ao meio” e “Um fantasma que fala alemão”), Karim nos propõe a simples observação dos personagens, a maior parte da ação sendo simplesmente subentendida. Muita coisa na história acontece no não-dito – as três partes que dividem o filme são bem espaçadas, retratando períodos distintos da trajetória do “herói”. Pouco é explicado – o filme insere o espectador nos novos cotidianos de Donato sem generosas contextualizações.

Mas não se engane: “Praia do futuro” não é meramente contemplativo. Karim não é Terrence Malick (“A árvore da vida”, “Amor pleno”); o cineasta franco-brasileiro se preocupa com a construção dos escassos, porém fortes e significativos diálogos de sua história, filmando, de forma pragmática, as reviravoltas na vida de Donato. Reviravoltas que são constantes; se no início vemos o protagonista de “Praia” vivendo uma vida estável como salva-vidas na famosa praia de Fortaleza, tudo muda quando ele perde para o mar, pela primeira vez, um afogado. Após se envolver com o parceiro do homem morto, Donato resolve construir uma nova vida na Europa, mesmo que para isso seja necessário apagar toda a vida – e as pessoas que dela participavam, como o seu irmão Ayrton – que ele levava no Ceará.

O irmão do protagonista, inclusive, é a principal força e destaque do terceiro e último ato do filme. Numa visita – que pode também ser chamada de invasão – à “nova” vida alemã do irmão, Ayrton confronta Donato, questionando o que levou o salva-vidas a abandoná-lo de forma tão mesquinha. Já se passaram dez anos – e, ainda assim, ele não tem a resposta. Seria leviano apontar a identidade sexual do protagonista como motivo único de sua fuga. É aqui que o filme mostra a real complexidade do seu roteiro e de seu Donato; o personagem de Moura parece fugir de toda a sua persona, de toda a sensação de pouco pertencimento. É dito que na Praia do Futuro nada pode ser construído, por conta de particularidades naturais daquele lugar. O mesmo parece sentir o salva-vidas que, ao perder a chance de salvar alguém, resolve salvar a si mesmo.

O filme de Karim, claro, pode desagradar em certos aspectos.  O roteiro não defende o ponto de vista de nenhum dos personagens, não estabelece nenhum julgamento sobre eles. Essa amoralidade, tão louvada na maioria das vezes, acaba por incomodar o espectador. Numa história tão fria e introspectiva, como se emocionar ou torcer por um dos personagens, sem que haja qualquer luz sobre eles? A forma objetiva e pragmática com que são filmadas as paisagens e os corpos dos atores – são planos perfeitos, simétricos, como que excessivamente calculados – parece criar um ar de indiferença, de superioridade. Muitas das cenas são pouco orgânicas; “Praia” se sai melhor quando se deixa levar pelo realismo das cenas mais simples.

Mas pouco disso ganha relevância, quando observamos tudo o que o Karim tem a oferecer.  Com soluções visuaissurpreendentes – mesmo nas imagens mais clichês, “Praia” é feito de fotografias belíssimas – e atuações louváveis – com especial atenção ao jovem Jesuíta Barbosa (“Tatuagem”) e ao já veterano Wagner Moura –, o filme tem os méritos de trazer uma história profunda e trágica às telas brasileiras, tão desacostumadas a esse apuro estético, e de ser uma das produções a tratar de personagens gays, sem que isso seja crucial para a história (como acontece no recente “Hoje eu quero voltar sozinho”). Ao final, numa cena repleta de significados na qual “Heroes”, clássico do Bowie, toca, percebemos: “Praia do futuro” é um filme sobre um herói covarde, que não ambiciona mais do que se autoconhecer e se libertar. Como todos nós.

Texto originalmente publicado no site Agenda Arte e Cultura: “Praia do Futuro: ‘Nós podemos ser heróis’“.

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