Under the Skin, 2013

by João Bertonie

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Jonathan Glazer é um destes cineastas que não dão muito ao seu público. Habitué nos grandes festivais (Veneza, Berlim, etc), seus filmes sugerem muito, sem nunca parecer confirmar nada. Seu último trabalho, o comentado “Sob a pele”, tem gerado múltiplas discussões, com poucas concordâncias; ninguém sabe exatamente o que Glazer quis dizer com o filme, nos restando apenas especular sobre o que nós intuímos com as poesias visuais oferecidas por ele.

As poesias visuais de “Sob a pele”, diga-se, são belíssimas. A personagem de Scalett Johansson — que deduzimos ser um alienígena num corpo humano que se alimenta de outros corpos humanos — leva suas presas a uma espécie de cabana, cujo interior é um escuro infinito, no qual as vítimas se afogam num lago negro. O resultado é uma representação fantástica de um ato escatológico. O filme não explica nem sugere por que as vítimas da Scalett são sempre homens solitários (ela faz perguntas incisivas — “você mora só?”, “trabalha aqui?” — às suas presas antes de capturá-las). O motoqueiro que acompanha a protagonista por todo o seu caminho não é menos misterioso; não sabemos quem ele é, por que ele a supervisiona e parece protegê-la.

O filme fica realmente interessante cerca de uma hora após seu início. Quando a personagem inominada da Scalett conhece um homem frágil e sozinho com o rosto deformado e não consegue ir até o fim com sua caçada. É o primeiro contato da alienígena com a vulnerabilidade humana — o homem está encapuzado e está indo fazer compras à noite por ter medo das pessoas — e a partir daí (ou talvez de uma queda que ela sofre no meio da rua logo depois disso) a visão que ela tem de si e das pessoas ganha nova perspectiva. Scalett passa a descobrir a humanidade em si própria; tenta comer um pedaço de bolo, experimenta o sexo, vive a fragilidade humana. Imagino que seu final — intenso e misterioso — seja uma sugestão de que o que é humano é essencialmente fraco e autodestrutivo. Apesar de que, sob a pele, Scalett Johansson continua sendo um monstro.

Mesmo ela sendo praticamente onipresente no filme, há pouco consenso quanto a atuação de Johansson. Gosto muito da atriz, e neste filme continuei gostando; talvez, pela sua posição de sex symbol, ela tenha sido a única opção possível para este papel (todas as “great beauties” da geração são atrizes menores — Megan Fox, Sofia Vergara, Eva Green…). Ao demonstrar desconforto, Scalett move pouquíssimos músculos do rosto — por ser um et, ela deve ser fria, mas a atriz consegue se expressar com eficiência apesar das limitações da personagem.

“Sob a pele” é muitíssimo interessante como experiência sensorial. Lembra muito “Ela” e “Praia do Futuro”; é uma sci-fi clean, como o filme de Spike Jonze, e é todo sensações e sugestões, como a produção de Karim Aïnouz. Porém toda a história me pareceu um roteiro de um curta alongado ao máximo; por vários minutos, acompanhamos repetições de situações que já vimos e que pouco parecem acrescentar às mil metáforas do filme de Glazer. Como tantas produções que se esquecem do seu público, “Sob a pele” é belo, porém cansativo e esquisito, e provoca só um arrepio — enquanto “Ela” e “Praia do Futuro” oferecem verdadeiros choques elétricos.

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