The Lobster, 2015

by João Bertonie

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Numa sociedade de emoções vigiadas, a solidão torna-se um crime e um castigo. Com personagens de expressões quase robóticas e situações ao mesmo tempo irônicas e melancólicas, “The lobster” dificilmente se encaixaria numa classificação tradicional, sendo simultaneamente apontado como uma comédia dramática-romântica sci-fi ou simplesmente como um drama macabro. Rotulações à parte, o filme traz uma visão dura da forma com que nos relacionamos uns com os outros.

Nesta sátira surrealista sobre o amor moderno, não há a possibilidade de optar por uma vida a sós consigo mesmo. O risco de se tornar um animal selvagem ou doméstico é iminente para os solteirões incapazes de se arranjarem com alguém em tempo hábil num luxuoso hotel-spa à beira-mar. Colin Farrell, que vive o protagonista do filme com olhos cansados e ar desmotivado, recém abandonado pela esposa, opta por ser transformado numa lagosta — crustáceo centenário e inofensivo –, no caso de fracasso na procura do par perfeito.

As pequenas metáforas e analogias que constroem o filme são ao mesmo tempo indigestas e pertinentes. No hotel, local onde se passa a primeira e mais interessante parte do filme, os amigos do personagem principal — e posteriormente o próprio personagem principal — simulam falsos traços de personalidade para se adequarem às suas pretensas namoradas, uma vez que um relacionamento só pode funcionar se houver similaridade entre o casal; um deles, literalmente, tem de sangrar para se ajustar. Mesmo depois de fugir e se juntar a um grupo de solteirões resistentes na floresta que rodeia o hotel, o protagonista só consegue estabelecer uma relação relativamente profunda com a personagem de Rachel Weisz, que narra a história, ao descobrir nos dois um elemento em comum. Em dado momento, quando ainda no hotel um casal se forma e se prepara para uma jornada romântica (e devidamente vigiada), é dito que se houver brigas e discussões, será dado aos pombinhos um filho para re-estabilizar a relação. “Isso geralmente ajuda”, aconselha, sorridente, a chefona do lugar.

Não é coincidência que a dinâmica das pessoas dentro do hotel lembre bastante a dos participantes de reality shows de relacionamento, como The Bachelor ou Are You The One?. Forçando um pouco a barra, a superficialidade e a pobre comunicação naquelas relações também podem lembrar a forma com que o amor é vivido na era dos aplicativos e das redes sociais.

“The lobster”, utilizando vias cômicas e desconfortáveis, ri das conveniências dos relacionamentos modernos e praticamente decreta sua perversão, ao mesmo tempo que não sugere possíveis saídas — mesmo os solteiros rebeldes na floresta têm suas leis e normas, tão cruéis e intransponíveis quanto às do hotel. O filme não revela (e esta de fato não deve ser sua pretensão) como lidar com as reais complicações das relações humanas, distante do mundo de emoções simplificadas e virtuais do hotel-spa. Mas refletir sobre as formas com que escolhemos amar talvez seja um passo.

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